O Sujeito lacaniano - Consituição do eu e o desejo do outro.
- terapopular
- 19 de mar.
- 2 min de leitura
Atualizado: 25 de mar.

O sujeito, para a psicanálise lacaniana, não nasce pronto — ele é produzido. E, mais desconfortável ainda: ele é produzido pelo Outro.
Desde muito cedo, o bebê se constitui a partir de uma exterioridade. No chamado “estádio do espelho”, ele se reconhece em uma imagem que não é exatamente ele, mas uma antecipação de unidade. O eu (moi) nasce, então, como uma identificação com algo externo — uma imagem, uma forma, uma ilusão de consistência.
Mas isso é só o começo. Em seu livro "Introdução a Jacques Lacan", Vladimir Safatle (filósofo e escritor brasileiro. Professor titular da cadeira de Teoria das Ciências Humanas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP) afirma que:
"Essa discordância entre o Eu e o sujeito do desejo é fundamental. É por isso que o Sujeito em Lacan é irremediavelmente descentrado, ou seja, ele nunca se confunde com o Eu"
Lacan diferencia o eu (moi) do sujeito do desejo (Je). O moi é essa instância imaginária: organizada, coerente, aquela que diz “eu sou isso”. Já o je é o sujeito que fala, mas que não domina completamente o que diz — atravessado pela linguagem e pelo inconsciente.
Ou seja, quando dizemos “eu”, nem sempre sabemos quem está falando.
Para Lacan, o sujeito é estruturado pela linguagem. E a linguagem vem do Outro — esse campo simbólico que inclui a cultura, os significantes, as expectativas que já estavam lá antes de nós.
É nesse ponto que o desejo entra. O desejo do sujeito não é simplesmente “seu”. Ele se constitui a partir do desejo do Outro. A pergunta inconsciente que nos atravessa não é “o que eu quero?”, mas “o que o Outro quer de mim?” ou ainda “o que eu sou para o desejo do Outro?”. O moi tenta responder a isso com imagens, identificações e narrativas de si. Já o je aparece nas falhas desse discurso: nos lapsos, nos sintomas, nos atos que escapam ao controle do eu.
Assim, o sujeito se organiza em torno de uma divisão: entre o que imagina ser (moi) e o que, de fato, o determina sem que ele saiba (je).
Isso explica por que o desejo nunca se satisfaz completamente. Ele não aponta para um objeto específico, mas para algo que falta — uma falta que nasce justamente dessa entrada na linguagem e na relação com o Outro.
No fundo, não desejamos apenas coisas. Desejamos ser desejados.
E é nesse desencontro — entre imagem, linguagem e desejo — que o sujeito se constitui.
SAFATLE, Vladimir. Introdução a Jacques Lacan. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. (Coleção Roteiro de Leitura).



Comentários